Produtores rurais apostam em modelo de pecuária de baixo carbono para atender um futuro mais consciente, exigente e ávido por proteína animal.
No coração da cultura indígena guarani existe uma figura mítica fascinante chamada “Caaporã” – um ser cuja missão é preciosa: proteger as florestas, os animais e os roçados. Quando chegaram em terras tupiniquins, os portugueses entenderam que “Caaporã” era simplesmente alguém que vivia no mato.
Com a transição da língua, “Caaporã” virou “Caipora”, palavra que, por sua vez, originou o termo “caipira”. Portanto, esqueça as conotações negativas que você já ouviu por aí sobre essa figura. Essa história linguística nos leva a refletir sobre o papel do produtor rural, aquele que, por essência, é quem cuida – ou pelo menos deveria – do campo, do mato, do meio ambiente.
Quem nos traz essa narrativa histórica é Luis Fernando Laranja, sócio-fundador e CEO do Grupo Caaporã Agrosilvopastoril, complexo de fazendas que produz proteína animal de baixo carbono. Para isso, o grupo reforma fazendas com pastagens degradadas e implantam sistemas de produção que combinam práticas agropecuárias sustentáveis com um componente florestal.
Em outras palavras, é um grupo de produtores rurais, grandes caipiras, que amam a pecuária e a praticam de forma sustentável. Neste artigo, você vai conhecer um pouco da história da Caaporã e entender como é impossível falar de pecuária e futuro sem considerar a sustentabilidade.
Missão e visão: Pecuária de baixo carbono
A lógica de criação da Caaporã está associada à agenda de mudanças climáticas. Luis Laranja participa há mais de vinte anos das conferências de clima da ONU (Organização das Nações Unidas), e com toda sua experiência e vivência em terras amazônicas, ele é enfático: não há como discutir o enfrentamento às mudanças climáticas sem considerar a produção de proteína animal.
Setenta e sete por cento (77%) da terra agricultável é para produção de proteína animal, isto é, galinha, porco, vaca, boi. Diante disso, o ponto de partida do grupo, segundo Luis, é que essa é a terra disponível para produzir. “O desmatamento tem que ser zero e nós precisamos usar a terra agricultável disponível da melhor forma possível”, defende.
Portanto, em um mundo onde a demanda por proteína animal aumentará quase 70% em 2050, segundo Relatório de Recursos Naturais da ONU, o que Luis Laranja propõe com as atividades do grupo Caaporã é o desenvolvimento de modelos inovadores de pecuária de baixo carbono. “Ou ajustamos a forma de fazer a pecuária, ou não haverá solução”, afirma.
Os 4 pilares da Caaporã
Fundada há quase 7 anos, o grupo Caaporã se estrutura em quatro pilares fundamentais:
Recuperação de pastagens degradadas
As fazendas do grupo trabalham exclusivamente com arrendamento de áreas degradadas, transformando terras de baixa produtividade em pastagens altamente eficientes.
Sistema silvopastoril
A Caaporã introduz 200 a 250 árvores por hectare, com pelo menos quatro espécies diferentes, sendo duas nativas. Essa abordagem não apenas aumenta a biodiversidade, mas também melhora significativamente a captura de carbono.
Como resultado de um trabalho iniciado há cinco anos, hoje são cerca de 6 mil hectares implantados no sistema silvopastoril, distribuídos nas quatro fazendas do complexo:
- Fazenda Rio da Mata II – Mato Grosso (Amazônia);
- Fazenda São Francisco – Tocantins (Amazônia-Cerrado);
- Fazenda São Bento – Tocantins (Cerrado);
- Fazenda Aurora – Bahia (Caatinga).
Atualmente, o rebanho é formado por 5 mil cabeças de gado, mas com as áreas já restauradas, o grupo deve triplicar este número em 2025, segundo Luis.
Pecuária baixo carbono
Através da intensificação da produção e do plantio de árvores, a Caaporã consegue reduzir drasticamente a pegada de carbono. A empresa está desenvolvendo uma metodologia inovadora para gerar créditos de carbono a partir da intensificação pecuária.
Rastreabilidade completa
Com foco na transparência total da cadeia produtiva, a Caaporã busca rastrear cada animal desde o nascimento até o abate, utilizando tecnologias de última geração.
Tecnologia a serviço da sustentabilidade
Para auxiliar nessa jornada, a Caaporã adotou o sistema iRancho para gestão do rebanho. A escolha não foi aleatória, segundo Luis. “No mercado brasileiro, o iRancho é reconhecido como uma das ferramentas mais consolidadas para gestão pecuária, oferecendo recursos essenciais para o monitoramento e eficiência operacional”, afirma.
O fato é que não ter um sistema de gestão não é mais uma opção. Felipe Bicalho é diretor de operações na Caaporã e é quem cuida de toda a operação pecuária e da restauração das pastagens. Para ele, que também utiliza o iRancho em sua propriedade particular, o sistema é o mais completo do mercado, justamente por possibilitar acertos que outros concorrentes não apresentam.
“Contra dados e fatos não há boatos, né?! Então, toda a minha equipe de campo, do vaqueiro a infraestrutura, usa. É a única ferramenta onde eu consigo medir os indicadores reprodutivos, ganho de peso individual… O único jeito de monitorar a operação é com o sistema”, explica.
Mão de obra capacitada
Felipe é enfático quando diz que hoje é inviável pensar em uma operação de pecuária sem sistema de gestão. No entanto, não se trata apenas de contratar um software, o produtor e sua equipe precisam fazer o dever de casa bem feito.
Ou seja, se capacitar para coletar dados de forma correta e usufruir de todos os recursos que o sistema oferece. “Dessa forma, o software ajuda você a gerenciar e enxergar se está no caminho certo para manter seu sistema de produção”, diz.
A iRancho entende a importância de capacitar equipes; por isso, fornece não apenas um treinamento personalizado, mas um acompanhamento fácil e rápido de nossos assinantes, nos sete dias da semana. Além de treinamentos presenciais, conforme a necessidade de cada cliente.
Expansão e perspectivas
Com planos ambiciosos de expansão, atualmente, a Caaporã gerencia 16 mil hectares, e mais 4 mil hectares estão sendo incorporados com o arrendamento de uma nova fazenda no próximo mês (março/25). Assim, a meta é chegar a 50 mil hectares até 2030, sempre priorizando o arrendamento de longo prazo e a transformação de áreas degradadas.
Nesse sentido, iniciativas como as linhas de crédito fornecidas pelo Banco do Brasil têm contribuído para a expansão do grupo. “Um aspecto relevante nas novas linhas de crédito é o da sustentabilidade, o que está totalmente alinhado com a nossa visão e o nosso foco em uma pecuária regenerativa e sustentável”, explica Luis.
Um desdobramento interessante do trabalho da Caaporã é a criação da startup CarbonPec, que visa desenvolver projetos de carbono em fazendas de terceiros, replicando o modelo bem-sucedido da Caaporã.
Pecuária baixo carbono é o futuro

A agenda climática, a demanda crescente por carne e o mercado, especialmente o internacional, cada vez mais exigente por produtos de qualidade, rastreáveis e sustentáveis já pressionam a cadeia produtiva.
Nesse sentido, para Luís, mesmo os produtores mais conservadores terão que olhar com mais atenção para a pecuária de baixo carbono.
Assim, para adotar práticas sustentáveis, o pecuarista aconselha: “O ponto de partida é a regularização ambiental, social, trabalhista e fundiária, apesar da burocracia brasileira. Pois como o produtor vai anunciar práticas ESG se ele está envolvido em alguma irregularidade ambiental? Ou ainda possui algum problema trabalhista, ou a APP está descoberta?”.
A partir dessa consciência, há um leque de práticas sustentáveis que o produtor rural pode, aos poucos, incorporar à atividade: bem-estar animal, ILPF, restauração de pastagens, dentre outras.
A Caaporã não apenas demonstra que isso é possível, mas pavimenta o caminho para uma pecuária verdadeiramente comprometida com o meio ambiente.
